a vida toda

ou isso ou
um mundo que
crescesse para dentro
até ao céu
por entre as tábuas secretas
de um dia excelentíssimo
de um dia limpo a álcool água oxigenada e
breves sopros arde mãe
pronto já passou digo-te que já passou
digo-te que para um mundo assim
se entra por mínimas portas poros
olhares minuciosos ou descuidados
que este dia decerto conteria
um mundo a que
se subisse a pulso e medo
aos ramos mais altos e frágeis
das cerejeiras de maio
para olhar de memória
a vida toda

para ti

Como uma pálpebra aberta ao vento
Avanças pé ante pé sobre finos fios
Dobrando cuidadosamente os dedos
Junto à erva rente ao muro

Pássaros e anjos trazem-te da infância
As cores do mundo
As cores de haver um tempo
Muito longe de calendários e relógios

De regresso à casa onde deixaste o coração
Acendes na obscuridade do dia a janela para a rua
E o som de vozes subitamente familiares
Vem por entre a cinza e o pó da terra e das estrelas
Deitar-se ao teu lado

E adormeces
Apertando sonhos
No local exacto onde nasceste

amanhã

Max Richter, Mirror (intro)

amanhã
quando o sol do meio dia
estiver
quinze minutos
depois das duas horas
abrirás os olhos
as mãos
a boca
gritarás muito alto
o nome
de teu pai
de tua mãe
o teu nome
o nome
de teu filho
e
nascerás depois
se tiveres sorte
para um meio dia
mais tranquilo

dia de aniversário

pai

depois de viver
quarenta e sete anos
ao pé de ti
continuo sem ter a certeza
em que raio de dia
afinal nasceste
vinte e oito de janeiro
vinte e oito de fevereiro
era assim naquele tempo
não interessa como vieste
não interessa como foste
não interessa como deste
a tua vida
agora estou aqui
à espera que o sono venha
e a alma se solte
para poder voar
ir abraçar-te
descer à loja dos teares
ou ir à tua cama para
me despedir de ti
uma vez
outra vez
e dizer-te que
não quero olhar lá para fora
não quero saber de outros rostos
estou cansado
por isso
diz-me se o vento ainda sopra
por entre os amieiros junto ao rio
diz-me em que lugar se foi esconder
o pássaro de que perdi o nome
diz-me se posso abraçar-te
uma vez
outra vez
neste dia de oitenta anos
de memórias e
rumores de asas
de palavras
que voltaram para
te aconchegar o sono
como se tua mãe
tivesse aparecido de repente

Pelos olhos de anjos

Quando, com a morte e os mortos de outros,
nos confrontamos com os nossos mortos e a nossa morte


Tantas mortes nos preenchem a vida
A cada passo um novo corpo
Cresce sob a terra
Por entre a erva dura do silêncio

Em cada um o seu pequeno inferno
Com suas múltiplas e engenhosas dores
O sono intranquilo suas ramificadas lágrimas
A terra pisada entre as flores
A pedra tumular a noite a lua
As borboletas de Outubro
A memória das pequenas luzes
Que da infância nos chegam
Pelos olhos de anjos
De asas muito azuis

Haverá um dia
Em que voltaremos a encontrar-nos
Debaixo dos ramos lentos
De uma árvore magnífica
Será primavera e estaremos
Muito próximos
Da eternidade

08 de Dezembro de 1994

foi ontem
era o começo da tarde
quando

agitando os braços
e abrindo muito os olhos procuraste a luz
na minha mão direita apertava
a mão esquerda a tua mãe
e tu voavas
por sobre todas as nossas vidas
todo o nosso passado
todos os nossos futuros
e antes e depois houve o teu choro
e os choros do costume
e de repente cresceste tanto
e ontem é já um dia
que passou há tanto tempo
como se fosse ontem
como se estivesses nos meus braços
pela primeira vez
e pela primeira vez sorriste
e pela primeira disseste
e pela primeira vez
segurei com a palma da minha mão
a tua nuca para te molhar de água
óleo e alegria
como se fosse amanhã
e tu fosses de novo
pequenino
no meu
colo

o colar do natal

Dois anos antes deste dia
Num tempo onde com o lento decompor
Das folhas de inverno no peito dos montes
Era outra vez natal
Comprei para te oferecer um
Bonito colar
Era bonito o colar
O natal não
Assim quase de repete e
Já não era bonito
E era outra vez natal como agora é outra vez natal
E a beleza está, como sempre aliás,
Onde formos capazes de a colar
E não deixa de ser estranho não me lembrar
Assim muito bem do tal colar
Mas lembrar-me muito bem do colar dele
Ao teu pescoço
Que fino o teu pescoço
Com ele posto
A tua pele onde
Outro colará agora
Os dedos
Portanto
Dois anos antes deste dia
Igual
Era como agora é
Natal

ouve a sombra

Ouve a espessura dos dias
a cortina por onde o sol não passa
a pele das tuas unhas
o silêncio das borboletas
que na memória habitam
ouve as nuvens a água
a chuva nas ruas que percorrem o teu corpo
ouve as lâmpadas as estrelas
o contorno das lágrimas no teu rosto
a respiração da voz
a sua sombra

antes de nos dizermos

Antes de nos dizermos adeus,
Antes de nos despedirmos
Vem, e traz-te levemente pela mão azul de agosto.
Como um véu, uma lâmpada, um sorriso.
Vem, como uma estrela de muito longe,
Com sua memória luminosa de dias rapidíssimos.
Vem e traz-te levemente pela mão azul do verão.
Encosta-te ao meu lado junto à cal da casa,
E no vidro côncavo da tarde despe-te do silêncio
Das leves roupas e deixa que o sol beije a tua boca.
Vem, como quem regressa do tempo que há-de vir
Para se sentar nos degraus da noite enquanto
Os meus dedos desvendam devagar
O teu cabelo.

Depois podes regressar à tua vida.

tudo azul darlin'

Li algures que Deus
vai voltar um dia para agitar os mares
os rios e as chuvas
e a sua sombra levantar-se-á
para tapar de azul
a terra toda
E o mundo todo será
líquido e céu
tudo azul
tudo

Por isso parece-me um bom momento
para encher o peito
e aprender a respirar
debaixo de água

Till Death or Life Do Us Apart

vai para quatro anos de enganos
camilo jose cela escreveria um rol de cornudos
mais completo
se ainda por cá andasse
dói-me o peito mãe
tenho caminhado muito
tenho feito queixinhas
tenho tido muitíssima pena
de mim mesmo e por isso
tenho bebido muita água
eu devia estar de castigo
até que a morte ou a vida
nos separe
vai para quatro anos de enganos
a rapariga a quem minha mãe oferecia
os morangos de maio
de oitenta e nove
é agora uma mulher de
anos medidos pelo meio
que procura um dia-amante
com manhãs de ombros largos
desportivos riso fácil e anos a menos
ao lado de quem
em busca da fonte da eterna juventude
se possa aconchegar
não ter medo
dormir finalmente a noite toda
meu amor
e ser feliz

não importa

andas por aí em sítios onde não te encontro
não te preocupes
deixa que outros
olhem dentro do teu peito
deixa que repitam as mesmas palavras
e outras
e até repetir os silêncios o vento
andas por aí
em sítios onde não vou
corres procuras
encontras lugares que podiam ser
pessoas que podiam ser
não sei
há momentos em que não sei
devia saber devia saber
andas por aí e não tenho nada
nem pele nem roupa que possa usar
para pedir desculpa como se dissesse
sou uma criança grande
hoje é muitíssimo importante estar vivo
hoje é muito importante ser feliz e
por isso
todas as dores e cicatrizes do mundo
não importam
percebes que no segredo dos refúgios
estás verdadeiramente só
e esse é um erro sem remédio
queres que eu cresça eu cresço
eu cresço devagar só sei crescer assim
devia ser hoje que serias feliz
no meio do nevoeiro
por onde andas
pára estás a perder tanto tudo
como quando deixaste abraçar-te
com os olhos tristes
e o corpo
longe

anything

um muro acima da memória
um homem triste com o mar ao lado
algumas certezas encalhadas
um sonho que não vinha mencionado

um carrossel telúrico de ideias
dois cavalos nús e espantados
uma menina que diz coisas feias
aos namorados

capítulo dois

- (silêncio) ... apenas o sussurrar do vento nos anzóis da tarde. Perpassa uma neblina mole pelos corredores das tristes mãos que envolvem a solidão dos campos electromagnéticos consonantes.
Entrementes... um homem caminha pelo óbvio caminho que o levará ao seu destino ou onde quer ir, dir-se-ia onde chegar primeiro. Nas mãos crispadas carrega alguns utensílios que dada a distância a que nos encontramos não conseguimos distrinçar e, por isso, nomear. É pena. De qualquer modo, façamos desta impedância uma representação da impossibilidade real e metafísica de tudo conhecer.
Em dado momento algo se passa. Um barulho, um ruído ou vários. Seja o que for parece vir para estes lados. Sejamos prudentes e acautelemos nossas circunstâncias.
Passemos aos quadro seguinte...
Um vulto, alguém que elocubra. Vê-mo-la ou, pelo menos, dir-se-ia que a olhamos, agora, absorta entre pensamentos meticulosamente escrutinados de entre a panóplia de possibilidades e impossibilidades possíveis, embora improváveis. Tais cogitações basculizam absolutamente os corropios que as alavancas, em absoluto, preconizam. Por entre as palavras e as imagens das palavas, outras palavras se agigantam. Torna-se absolutamente imperioso que o façamos. O quê?
Um instante, diríamos, fotográfico: lá fora a tarde cai. Ouvem-se os pássaros que atravessam as avenidas e poisam nos semáforos...

dias feridos

A coragem custa caro meu amigo
Mede-se com palmos de terra por cima
E o corpo frio

Suave é esta ternura de corpo assim aceite

A flor vermelha onde o sangue se esconde
Abrir-se-á para sempre num desespero verde
Junto a um sítio de dedos
Abertos para uma inquietação já imprecindível

Por vezes um sorriso antigo
Vem lembrar-nos que a morte
Não nos ensina só a estar quietos

para-suicídio

Abro a janela até ao outro lado e inclino-me
Comovido deixo-me deslizar sobre o seu peito
Encontro-me comigo a meio caminho do asfalto
Mas já é tarde. Não faz mal.
Enovelo-me suavemente contrafeito

nas tuas mãos

Nas tuas mãos o vidro do silêncio
As palavras por dizer as palavras virgens
Na tua boca a memória tranquila de um beijo
O contorno de um corpo viajante
Nos teus olhos a mesma luz
A mesma sombra cúmplice
A mesma morte iniludível

sorrindo

Dizer algumas palavras possuí-las
Repetir o seu húmido interior
Ser nervo e água
Correr ao encontro da morte
Turisticamente
Sorrindo
Sorrindo sempre
Por trás do vidro e da memória

na curva do rio

Moradia anónima de seixos e de lírios
O teu corpo promete uma colmeia
Um sinal de terra e de abismos
na curva do sangue onde a veia

pulsa e rompe a corda e os astros
E o vento corre observando mar
Do cimo dos teus dedos e dos mastros
Do barco que é o teu corpo a navegar

o meu quase casa riso flor aberta
Ao voar da abelha rente ao músculo
No silêncio improvisado pela espuma
É que as coisas acontecem e estão alerta

os búzios as flechas os castores
O som o desafio a construção
Do rio para o corpo

Já sobre o sangue se inicia a pedra do futuro

esperarei por ti

Esperarei por ti eterno neste cais
Onde se despedaçam ondas uma a uma
Esperando encontrar assim alguns sinais
Da tua presença diurna sobre a espuma

Um animal vagueia no limiar da erva
Onde a claridade chega a horas certas
No bosque que é o teu corpo perplexo
Insisto em ser a chuva o grito doce

Este é o silêncio que os meus beijos desejam
A alegria dos pássaros contornando
A pedra a bala os olhos espantados

O sítio granítico onde as vozes ferem
As gaivotas do cais num desejo brando
de ser água e árvore abraçados.

fotografia

É o riso de água no rosto disponível
É a muda face das palavras
São os lábios abrindo breves gritos
Sobre o silêncio que nas palavras repercute

o pequeno rio

escrever no papel mais frágil
a pele
percorrê-la folha a folha ir
pelo caminho de cima
ao sítio onde
as macieiras florescem ir
ao encontro do silêncio e
o seu contorno quase absoluto ir
e dizer coisas bonitas e outras feias
voltar a escrever no papel mais frágil
agora a memória
subcutaneamente acender a alma para
dias mais limpos mais azuis
escutar a música
que se levanta por entre os minutos
da viagem de regresso
ao pequeno rio
onde nos despimos

até ao céu

porque vi lágrimas nos teus olhos e fugi
e percorri as ruas desta cidade de papel
e já não sei que mais
caminhos inventar
enquanto distraído cresces
queria dizer-te que me importa
que saibas os nomes das capitais de todos os países
que saibas de cor os números infinitos
e saibas as palavras de outras línguas
e os lugares e os gestos de ternura
que aprenderes
e saibas fintar os dias
como num jogo de futebol
porque vi lágrimas nos teus olhos
queria dizer-te que me importa
que devia haver uma oficina onde
pudessemos aprender
a amar
verdadeiramente a amar
verdadeiramente
com lágrimas nos olhos
com nomes pendurados na alma
com silêncios difíceis
com dúvidas na boca
e nos beijos
porque vi lágrimas nos teus olhos
queria pedir-te
perdão e
rir alto
contigo
até ao
céu

como quem regressa a casa

Pai, hoje por entre as folhas da tarde abri o livro que
costumavas ler-nos junto ao canto mais aceso da casa
e nos aconchegava a noite junto ao peito.
Dele sairam palavras. As mesmas palavras
que nos dizia a tua voz. As mesmas palavras
escritas nele há tanto tempo.
E é como se o tempo importasse pouca coisa.

Pai, volto hoje aos lugares tranquilos da infância.
Por instantes subo ao teu colo.
Regresso ao teu nome como quem regressa a casa.
Encolho-me devagar contra o teu peito.
Cresço intermitentemente.
O teu cabelo escurece e os teus olhos brilham,
nesta altura,
como antes de todas as dúvidas
e da burocrática e implacável resignação dos dias.

Pai, volto hoje aos sítios serenissimos da memória,
por onde caminhamos agora lado a lado.
Vou por onde fores,
por entre os agora muito velozes dias.

E há árvores e flores e pássaros e palavras
e água e montes e silêncios que se estendem
por onde os braços da noite abrem passagem
para uma lua antiquíssima de murmúrios.

porto de abrigo

A nossa casa
Cresceu durante anos
Toda a tua vida
Para ocupar um lugar
Cada vez mais
Dentro de ti
Do coração

lacrima crhristi

Ruas de água abertas sobre o dia
são o motivo animado do poema.
Ruas líquidas onde o sonho principia
sem outra palavra que o transcreva.

Ruas quase tristes quase magoadas
de uma cidade de nuas geometrias.
Ruas de horas por medida encomendadas
de um catálogo de truques e magias.

Ruas de olhos baços desenhados
no ar. Papel onde te moves dia a dia.
Ruas litorais resignados
de uma dor que se move já tardia.

Ruas onde o tempo acontece e reclama
uma parte do chão para deitar-se
junto ao reflexo trémulo da lua.

Ruas transportadas para a cama
de um silêncio azul e o teu disfarce
é a foto de uma felicidade nua e crua.

the father, the son & the holly mother

Estou com muitas saudades tuas. Não sei porquê. E apesar disso quem mais me faz falta é o nosso filho. O seu riso. As suas canções. Os seus gritos. A sua rebeldia. O seu sono. O seu sonho. O seu acordar. A sua alegria. Os seus medos. Os seus sobressaltos. Todos os dias. O teu nome chamado pela noite, mãaeee…! (deita-te ao meu lado, ao meu lado…)

Mãe…!
Agora o teu nome passou a ser mãe. Passaste a ser o nome mãe. Como no papel assinado, «o pai e a mãe concordam em…», ser apenas preciso dar um fim à história.


"Não quero ser agressivo e não quero magoar ninguém. Há muitos anos que tenho a preocupação de não magoar ninguém. As pessoas não precisam de mim para se magoarem, já se magoam tanto a elas mesmas." António Lobo Antunes, Revista Ler

Mãe…!
Tenho tantas saudades tuas. Saudades não são uma coisa muito boa para se ter. Não quando se trata de pessoas. Ter saudades de pessoas «dói como pedra na língua». Ou porque as pessoas se afastaram ou porque as pessoas morreram. Ou nós morremos e, com isso, as afastámos. Ou as afastámos e, por isso, morremos. As combinações são infinitas. Incontáveis. Lamentáveis.


Mãe…!
Estou com muitas saudades tuas. Agora misturo tudo. Memórias de todos os dias em que penso que cheguei a ser feliz. Memórias de todos os lugares e palavras e pessoas através e dentro das quais penso que cheguei a ser feliz. E também eu pude chamar outros nomes. O teu nome. Um nome é um lugar eterno onde se encontram outros nomes e outros lugares. Uma passagem. Um túnel. Uma ponte.
Uma fonte.

Mãe…!
Não sei porquê mas tenho saudades de ti. Do tempo em bebia na concha da tua mão a água da bica do poço. Do tempo em que me doiam os braços de tanto de abraçar. Do tempo em que maio ficava junto ao teu sorriso. Do tempo em que, um dia, havemos de nos sentar lado a lado e, discretamente, dar a mão ao outro. A tua mão na minha mão. A minha mão na tua mão.


Mãe…! Agora confundo tudo. Ouço chamar por ti!
Um filho cabe na palma da mão do mundo.

que provável morte

Tu virias devagar sabendo a fome
como vêm as horas os minutos este tempo todo.
Do teu corpo nasceria um rio
para inundar de pólen
o silêncio

As minhas palavras continuam a tecer o infinito.
Os meus dedos a apertar o medo
nas pétalas da chuva.

De que provável morte te anuncias?

o penúltimo degrau

O corpo envolve um quadro líquido de sons onde
a insinuação levemente doméstica das palavras
inicia a geografia meticulosa da saudade

O riso cristal visível do silêncio
A imagem possível que a memória ocupa
O braço surpreendido sobre a mesa
O líquido mínucioso do olhar

É também a explicação devo dizer-te
para a hábil erva revelada no
penúltimo degrau de cada ausência

até ao fim

Encontro-te amiúdadas vezes por estes lados olá como vais
Encostas-te na cadeira e acendes-me um cigarro
Falamos de variadíssimos assuntos todos eles interessantíssimos
Deitamo-nos depois nas entrelinhas
Entretanto, poderemos estar calados não faz mal
Temos o tempo todo até ao fim

perfume de equívocos

Estás no silêncio
Na distância interior das mãos
No torpor inquieto das palavras
Estás onde por vezes
É possível escutar a música
Que desperta da noite e
Adormecer tranquilo
Sob a sombra que no limite do tempo constrói
Um intervalo para perguntas à memória
Que na densa folhagem do corpo depositam
Um intenso perfume de equívocos

o súbito riso

Levarás contigo indelével todo o meu silêncio
Aquele a que pertencias pertences
Exposto no húmido interior de
Todos os segredos do teu corpo
Levarás a água rigorosa das manhãs o
Súbito riso o inclinar breve dos olhos a
Plena acentuação dos braços o
Ventre inquieto das palavras
O acordar redondo do futuro

Levarás ainda bem sabes um fino cordão

De nervos e músculos na memória

espera por mim esquece-me

espera por mim esquece-me
alivia a minha culpa ouve-me
vou contar-te tudo
era uma vez

um dia
encostei-me ao teu corpo
como se o tempo fosse
uma parede branca

um dia...

agora cala-me
esquece-te de mim
a primavera começou
conforme o calendário
os meus beijos em maio
esperam
por ti

pai

As minhas mãos nas tuas mãos
os montes em março de dois mil e oito
setenta e nove anos após tu teres
nascido a tua mãe
a minha avó
morta dois meses depois
de eu nascer foi quem
primeiro para mim olhou
disseste tu
num dos teus
poemas feitos à mão
nas folhas aproveitadas
do outro lado ainda em branco
Lembrei-me agora
do velho ford taunus 17 m
que era preciso empurrar
e chegou aos cem algumas vezes
nas tuas mãos as minhas mãos
no teu rosto. O meu filho há-de
um dia querer lembrar-se de
ti e das primeiras mãos que dele
desceram para a terra para a compor
para nela semear feijões mágicos
desenhos do pó de maio
as uvas quentes de setembro
o teu nome
ao seu lado ao meu lado
minha mãe chamando para a mesa
quando éramos cinco lugares e
o teu pai chegava para mais um
e os lugares eram os mesmos
eram sempre os mesmos
os de cada um
o lugar que lhe pertencia
como quem sabe que ali
pode chegar e sentar-se
encostar-se na cadeira
e ficar calado de mãos fechadas
sobre o rosto
como quando nos morre
quem amamos
ou em sossego as lágrimas queimam
e por isso pai hoje
chamo por ti hoje enquanto dormes
chamo por ti e o teu nome
voa por cima desta casa vazia
na direcção dos montes
e dos verdes silêncios da aldeia
boa dia pai
vou abraçar-te um dia destes

i can't take my eyes of you

um dia antes de ires embora
do breve convívio dos meus braços
havia poemas para ti
em toda a parte
palavras que nasciam
na água das manhãs
e desciam pelos beijos
desciam pelos braços
para o chão de fevereiro

agora
no sítio do teu corpo
a noite abriu-se
e a casa é apenas o lugar
onde não estás

com um beijo escondido

Espero pela primavera
como quem entra devagar nas folhas de maio
para tirar a sombra do coração das árvores

O filho está sentado à direita do pai

1.
O filho está sentado
à direita do pai
na mesa grande
onde todos cabem e
o pão se divide
e sobem dos corpos
labaredas pequenas que
iluminam o coração
do dia
2.
Quando nasceste
como um lírio de olhos claros
abracei o teu corpo junto à janela
depois de olhar o rosto já tranquilo
de tua mãe contente
3.
No dia em que todas as estrelas
do céu se acendem
para molhar de luz
o teu rosto
lembra-te meu filho
que todos os silêncios
serão teus porque
a tua sede é a minha sede
a tua fome a minha fome
a tua vida a minha vida
os passos que deres
o meu caminho

Sei de um lugar

Sei de um lugar onde
a luz estende longos olhos pelo dia e
onde a sombra das horas voa devagar
junto a muros de ervas e palavras
e me encosto aos teus braços
e fico quieto no teu peito
quando aperto nas minhas mãos as tuas
quando fechas os olhos
quando sorris
para sossegar
o coração

fazer de conta (outra vez e sempre e sempre e sempre)

Regresso devagar à casa que habitámos
Olho de longe as janelas por onde
O meu filho gritou toda a alegria do seu corpo
Volto a jogar à bola com ele no corredor

E, desta vez, deixa-me ganhar
Sento-me á beira da cama onde se deita
Olho-o nos olhos
Digo-lhe até amanhã e aconchego-lhe a roupa
Ele fecha os olhos
E viaja comigo ao meu lado
Vamos por um caminho de árvores de mão dada
Subimos o monte por entre pedras e arbustos
Cansa-se e levo-o então às cavalitas
Ri-se e aperta as mãos pequenas à minha volta
Regresso devagar aos contornos da casa
O meu filho nasceu há pouco tempo
Deito-me ao seu lado
Canto-lhe dorme meu menino a estrela d’alva
Já a procurei e não a vi
Perco-me no caminho dos versos procuro atalhos
Sítios por onde outros passos tenham ido
Descemos devagar a encosta do sonho e
Adormecemos lado a lado

Até ser dia.

Felizes os que bebem dessa água

Nas palavras partidas recusadas
repousam os braços horizontais da morte
Nomes esquecidos em silêncio
Mãos esquecidas em silêncio
Ruas que se fecham
sobre o corpo líquido dos dias

Lado a lado regressas
por um atalho de luz ao meio dia
prometendo colocar todas as dúvidas por escrito
para que nunca te esqueças
do pesado movimento das palavras

O silêncio cresce por entre os dedos da noite
Talvez pudesses ficar aí deitada
respirando o murmúrio breve da memória
ligeiramente inclinada sobre as páginas do corpo

Não sei porque regressas
Deve haver um caminho mais curto
para entrar na morte sem causar surpresas
quero dizer um sorriso um sinal um corpo
que na penumbra do silêncio ocupe
o espaço permanente do desejo

Na folha calada da alegria depositas
agora as palavras escolhidas
A memória permanece para lá do corpo
Felizes os que bebem dessa água
quando a sombra do dia cresce intermitentemente
pelo cotovelo poroso das manhãs.

um dia

Um dia regressarei para te abraçar
e andar contigo em passos largos,
por entre os pinheiros e as pedras
por um caminho de silvas e giestas.

Nesse dia,
iremos muito cedo.
Conversaremos pouco.
Ouvir-te-ei falar do tempo
em que te guiavas pela cor dos medronheiros
e o cantar dos gaios amarelos.

No sítio onde se cruzam os caminhos,
reencontraremos 'as almas'.
E repousaremos um instante à sua beira.

quando morrer

Quando morrer quero
Voltar à casa onde nasci
Ao tempo das longas chuvas
Voltar a ter férias grandes
E feridas em carne viva nos joelhos

Quero o colo de minha mãe
A mão na mão aberta de meu pai
As minhas irmãs e o seu riso
A família em volta da mesa
O silêncio do anoitecer
Sentar-me junto à lareira
No chão aceso de casa

Quando morrer quero
Voltar a tempo de entrar
Em casa sem acordar ninguém

o teu nome

Filho, por entre todas as palavras
Ouve-te por dentro.
Respira fundo o ar azul do verão.
Ri, ri muito. E quando as lágrimas vierem,
Da água mais antiga,
Deixa-as deslizar tranquilamente
Pelo rosto.
Recordar é passar de novo pelo coração.
Lembra-te de todos os olhos dentro dos teus olhos,
Do peito da noite e do vento das estrelas,
Das tuas mãos nas minhas mãos,
Das viagens todas que inventámos,
De todos os sítios

Por onde agora caminha
O teu nome.

a casa

Abres os olhos e a noite fecha-se.
No lugar do coração arrumas a tua verdade das coisas.
O dia azul,
A praia e a areia molhada pelas mãos do mar,
O rio claro, a casa,
O vento líquido nos cabelos,
Um abraço, um beijo, uma palavra, um grito,
Os cigarros que voltaste a fumar.
Aquilo que te disse

Chegas à noite como quem acorda de repente.
Levantas-te e acendes um cigarro.
Caminhas pela casa.
Abres gavetas.
Sentas-te junto à janela.
Adormeces, acordas, repetidamente,
Sem ter percebido que morres,
Todos os dias,
Há muito tempo .

espera por mim

Disseram-me hoje que te foste embora
preferindo uma cidade de chuvas e nevoeiro
onde os teus olhos pudessem permanecer
húmidos e transparentes

Disseram-me hoje que partiste
e nas tuas mãos levavas
todos os sítios do corpo

Nenhuma autópsia traz notícias do olhar
é inútil sonhar alto ou dormir de barriga
para baixo pressionando o destino como
uma pedra entre as pernas

Espera por mim junto ao canal
é apenas o tempo de compor os olhos
procurando uma viagem mais nítida
onde o lume atravesse o interior da água
como um punhal finíssimo uma seta de luz

tempo de partir


Pelas duas da tarde o nosso amigo partiu.
Procurou novas palavras onde encontrar abrigo.
Ele que tanto viajou em busca de outros sítios,
outras cidades onde fazer amigos, estava, desta vez, quieto
como um pequeno rio de água brancas.

São horas, dizes. É tempo de partir.
O passado está para lá da curva.
Leva-te o vento e a chuva deste outono.
Não sabes, mas haverá muitas flores.
Ainda não é primavera e já não é primavera!
Podias dizer, nada disto faz sentido! E terias razão.
Pouco importa. Levanta-te. Vamos indo. São horas de dormir.
Teu pai e tua mãe esperam por ti
junto ao portão da escola.

Ya lo dicho, eran las dùas de la tarde
e as nuvens abriram-se e o teu nome,
como uma pétala vemelha,
atravessou o céu.

respirar sem ti

Pela primeira vez viajo contigo
sem ti ao meu lado
por uma estrada longa de sinais
na direcção do mar

Encontrar-te-ei em cada grão de areia
em cada gota de água
em cada estrêla

dentro de todos os minutos
todos os silêncios
todos os milímetros
que andar

Pela primeira vez viajo contigo
sem ti ao meu lado
sem o teu sorriso perto o teu cabelo aberto
a respiração do vento
no teu olhar

fazer de conta (outra vez)

Regresso devagar à casa que habitámos
Olho de longe as janelas por onde
O meu filho gritou toda a alegria do seu corpo
Volto a jogar à bola com ele no corredor
e, desta vez, deixa-me ganhar
Sento-me á beira da cama onde se deita
Olho-o nos olhos
Digo-lhe até amanhã e aconchego-lhe a roupa
Ele fecha os olhos
E viaja comigo ao meu lado
Vamos por um caminho de árvores de mão dada
Subimos o monte por entre pedras e arbustos
Cansa-se e levo-o então às cavalitas
Ri-se e aperta as mãos pequenas à minha volta
Regresso devagar aos contornos da casa
O meu filho nasceu há pouco tempo
Deito-me ao seu lado
Canto-lhe dorme meu menino a estrela d’alva
Já a procurei e não a vi
Perco-me no caminho dos versos procuro atalhos
Sítios por onde outros passos tenham ido
Descemos devagar a encosta do sonho e
Adormecemos lado a lado
Até ser dia.

para sempre

Guardarei para sempre
o sorriso dos teus olhos de avelã
As tuas mãos nas minhas
Os teus braços à minha volta
Guardarei os sítios onde nos sentámos
para descobrir o dia
A sombra pequena do teu corpo
As lágrimas que chorámos separados

palavras

Vem depois de azul a palavra lua
depois de lágrima a palavra mar
Vem depois de corpo a palavra nua
depois de riso a palavra amar

Vem depois de àgua a palavra rosto
depois de rua a palavra raiva
Vem depois de tempo a palavra agosto
Depois de estrela a palavra carne

Vem depois de folha a palavra flor
depois de amor a palavra casa
Vem depois de sonho a palavra rio
depois de mão a palavra abraço

Vem depois de nós a palavra noite
depois de verde a palavra vento
Vem depois de olhar a palavra onda
depois de pedra a palavra longe

Vem depois de ti a palavra só
depois de dia a palavra maio
Vem depois de sol a palavra sal
depois de perto a palavra frio

Um dia

Um dia no tempo que se estende segundo a segundo pelo corpo
haverá talvez um instante em que possas regressar
às largas horas de domingo quando
os mornos aromas de uma primavera adolescente
faziam correr dentro do peito
os longos dedos de um silêncio tranquilo

Nesse dia talvez se acenda de novo nos teus lábios
o pequeno riso de quem encontra inesperadamente
a flor que lhe fugiu da infância
e possas encostar-te lado a lado à cerejeira a que subias
para
olhar do alto a respiração das ervas

ao teu lado

As manhãs acordam na cidade
insinuando-se por entre as vozes
deitadas na cama onde um dia adormeceste
para as traseiras do rio

beija-me de novo e passa de novo pela minha vida
mesmo que depois vás embora
e deixes no teu lugar
aquilo de que tenho medo

como se fosse pequenino
e só pudesse caminhar de mão dada
ou ao teu lado

coisas simples

A cada momento há gestos indizíveis
minutos interditos movimentos que se cruzam contradizem
pequeníssimas luzes que se acendem
ao mínimo rigor que a dor instale

e há serenas horas calmas mágoas
olhos que nos olham e nos devolvem
o levíssimo conforto de haver coisas simples

como alguém saber o nosso nome
o dia em que nascemos
a cor que os nossos olhos tinham ao primeiro olhar
o sítio do primeiro abraço
a intensidade do vento
ou o seu murmúrio

fazer de conta

Regresso devagar à casa que habitámos
Olho de longe as janelas por onde
O meu filho gritou toda a alegria do seu corpo
Faço de conta que volto a jogar à bola com ele
No corredor e, desta vez, deixa-me ganhar
Sento-me á beira da cama onde se deita
Olho-o nos olhos
Digo-lhe até amanhã e aconchego-lhe a roupa
Ele fecha os olhos
E viaja comigo ao meu lado
Vamos por um caminho de árvores de mão dada
Subimos o monte por entre pedras e arbustos
Cansa-se e levo-o então às cavalitas
Ri-se e aperta as mãos pequenas à minha volta
Regresso devagar aos contornos da casa
O meu filho nasceu há pouco tempo
Deito-me ao seu lado
Canto-lhe
dorme meu menino a estrela d’alva
Já a procurei e não a vi
Perco-me no caminho dos versos procuro atalhos
Sítios por onde outros passos tenham ido
Descemos devagar a encosta do sonho e
Adormecemos lado a lado
Até ser dia.

um dia

Um dia
deitar-te-ás na areia
molhada pela manhã do mar
ou na relva ainda húmida do jardim
será primavera e
olharás bem alto o tecto azul do mundo

Depois devagar
estendes os braços junto ao corpo

Recordarás o sabor das rosas de maio
o rumor da água nas sombras do rio
e saberás

são horas de fechar os olhos
e dormir
ou morrer

tanto faz

o teu sorriso

a todas as horas todos os minutos
espero o teu sorriso que
ele surja à minha porta
e entre no meu dia
como uma luz
acesa na
noite